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13.03.18

Rede ferroviária: Mais de metade está em mau estado


Bruno Fernandes

Rádio Renascença/DR

 

Quase 60%. 

É esta a percentagem de linhas de caminhos-de-ferro nacionais que estão classificadas como "medíocres" ou "más", relativamente ao seu desempenho, por um relatório de maio de 2017 da Infraestruturas de Portugal (IP), noticia o jornal Público

Segundo o matutino, em pior estado estão, na Linha do Norte, o troço Ovar-Gaia (35 kms); na Linha do Douro, o troço Tua-Poçinho (32 kms); e a via estreita de Espinho a Oliveira de Azeméis e de Aveiro a Sernada do Vouga (68 kms). Para além disso, todos os troços que aguardam por modernização estão classificados como "medíocres". 

O troço Ovar-Gaia é destacado no relatório por ser um dos mais problemáticos: "A vida útil dos ativos neste troço da Linha do Norte há muito que foi excedida e qualquer tipo de intervenção de manutenção produz efeitos pouco duradouros", refere o relatório que atribui, numa escala de 1 a 8, a classificação de 1,9 ("mau") constatando que a linha necessita de "intervenção urgente". 

Comparando as redes suburbanas do Porto e Lisboa, constata-se que a rede da capital está em pior estado que a da "Invicta". As linhas de Cascais e da Cintura (Alcântara Terra-Braço de Prata) são classificadas de "medíocre", assim como o Ramal de Tomar, a linha do Algarve (Lagos-Faro) e linha da Beira Baixa (Entroncamento-Sarnadas (Vila Velha de Ródão)). 

Apesar de a IP dizer que o relatório não pretende "assinalar ativos que representem risco de ponte de vista de segurança de pessoas e bens", segundo o Público, as linhas com pior desempenho são aquelas onde têm ocorrido mais descarrilamentos. 

 

Parece "Sorte"

Segundo o levantamento efetuado pelo jornal Público, dos acidentes ferroviários ocorridos nos últimos quatro anos (20 descarrilamentos) aconteceram em linhas consideradas problemáticas, sendo que as linhas da Beira Alto e do Douro são as que tiveram mais ocorrências. Ressalvando o estado do material circulante, o que é certo é que não tem havido descarrilamentos em linhas em bom estado. 

"Sorte" é mesmo a palavra de ordem: só seis dos 20 descarrilamentos envolveram comboios de passageiros e todos sem vítimas a registar. 

É certo que o relatório reconhece que o estado da rede ferroviária tem que ver "com a existência de um passivo de renovação ou défice de conservação" devido às limitações orçamentais das empresas públicas nos últimos anos. No entanto, os anúncios de obras de modernização das linhas tornam racional a decisão da empresa pública de não fazer obras de monta quando se espera um investimento que resolva os problemas. A redução de pessoal também é apontada no relatório. A diminuição de know-how na empresa, leva a que a IP recorra à prestação de serviços externos realizados por empreiteiros sem conhecimentos especializados em ferrovia e com deficiente fiscalização. 

Da parte de quem fiscaliza, o Instituto da Mobilidade e dos Transportes (IMT) tem apenas cinco pessoas afetas ao setor ferroviário.

O relatório aponta que o problema da rede é mesmo o estado da via, ou seja, carris, travessas e balastro. 58% das vias estão em níveis maus ou medíocres. Já outros elementos da circulação ferroviária estão em melhor estado mas de forma desigual. Uma em cada quatro agulhas, aparelhos de mudança de via, estão em mau estado ou, mesmo, estado medíocre. Os túneis também são um ponto problemático: um em cada quatro estão classificados como "maus" ou medíocres". O túnel de Caíde (1088 metros) e o túnel de Gaviarra (258) são os piores e que estão assinalados pelo relatório. 

Contactados pelo Público, a CP diz que "não efetua a avaliação técnica do estado da infraestrutura ferroviária", confiando à IP essa responsabilidade. Mas a empresa de transportes sempre vai dizendo que partilha "o conhecimento que diariamente recolhe da degradação localizada na infraestrutura ferroviária, sem que tal tenha motivado até hoje decisões autónomas por parte da CP sobre restrições de velocidade. Já o IMT diz acompanhar "no quadro das suas competências, a evolução do desempenho e da gestão da segurança" da ferrovia, analisando "um conjunto de indicadores comuns" e que formula "recomendações ao gestor de infraestruturas quando aplicável". A IP não respondeu ao jornal.